domingo, 28 de abril de 2013

Não me importo com as rimas (PESSOA, F.)

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores tem cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-se 
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno levanta-se vento...

Madrigal (BRITTO, P. H., 2012)

Desista: não vai dar certo.
O mundo não é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

Acaso fortuito ou sorte (CARMO, J. A. , 1999)

Ninguém entra no mundo sorrindo
é sina da pobre humanidade;
em protesto entramos chorando,
- nos espera dor e falsidade.

São vítimas ricos e pobres,
deste acaso fortuito ou sorte;
que nos causa tanta ilusão,
do berço frágil até a morte.

Os flagrantes que a vida espelha,
cintilando raios de esperança;
são quimeras - brinquedos de criança.

A vida se esvai como vapor,
- temerário trajeto de um grito
que se ouve e se perde no infinito.

Não volto nunca mais (CARMO, J. A, 1999)

Lá estou - ninguém ouve mais meu grito;
caminho impávido pelas sombras do infinito.

Nesta infinda e retilínea ponte
busco o imensurável horizonte.

Ninguém sabe os sonhos que acalento
atrás do véu azul ou no soprar do vento.

Liberto agora de tantos ismos
amo e venero esse mutismo.

Desterrado deste amargo chão
lá estou apagando a efêmera ilusão.

Longe das mentiras deste mundo de cinismo
bendigo e exalto o ostracismo.

Entro neste exílio sem medo
e não compartilho mais o meu segredo.

Fui banido dentre os seres mortais...
me esqueçam - não volto nunca mais.




Meus sonhos e utopias (CARMO, J. A, 1999)

Em meus sonhos mais profundos
viajando ao redor do mundo,
sonhei com o rio Tietê.
Era a esperança do futuro
nas heroicas conquistas,
era o "Nilo" dos paulistas.

Nas noites das garoas frias
a luz pálida refletia,
havia música nos ares,
das grandes matas vinham os filhos
que tinham no olhar um brilho,
vendo os filhos dos mares.

Vi as borboletas voando,
ouvi os pássaros cantando,
nas barrancas muito fruto
naveguei em águas frias
neste misterioso sonho
entre minhas utopias.

Uma misteriosa estrela errante
vai guiando os bandeirantes,
abrindo estrada mais certa,
a noite transmuda em dia 
na deslumbrante fantasia,
para a grande descoberta.

A hora santa (FREIRE, P. A., 2011)

É chegada a hora.
Tempo de noite, onde o medo mora.
O sino já chorou
choroooooouuuuuu
choroooooouuuuuu
marcando a hora
que m’encerrou.

Esta masmorra , só minha,
com grades de ponteiros,
cela infeliz e medonha,
conta a chegada d’um barqueiro que caminha
para me levar em sua viagem enfadonha...

É hora!
Já vejo a Morte, minha senhora,
(Sem... hora. Sem... hora. Sem... hora)
montada em corcéis de fulgor
munida de foices e relógios
que numa abaixada, seguida de ósculos,
carrega-me na calmaria de seus braços
para o calor-frio de seu amor.

E caminho
ouço fraco o sino que batia
marcando, no eco inconsciente,
o tempo que morria.

sábado, 27 de abril de 2013

Lorem ipsum (BRITTO, P. H. , 2012)

"Venham", diz ele, "que eu lhes ofereço 
sinéreses, cesuras, hemistìquios
e muito mais, e em troca só lhes peço
sofríveis simulacros de sentido.

Venham, que a noite é sólida e solícita,
e aguarda apenas o momento exato
de nos servir a suprema delícia,
como um garçom anódino e hierático."

Porém apelos tantos, tão melífluos,
atraem tão só máscaras sem rosto,
cascas vazias e rabiscos pífios.

Tudo resulta apenas neste dístico:
Ninguém busca a dor, e sim seu oposto,
e todo consolo é metalinguístico.

Pandemônio

Num súbito instante de inspiração
Aparece essa poesia que parece não ter fim
Infinita por si mesmo, por ter surgido assim,
Num instante tão vazio, sem amor, sem ação.

Poesia discreta, que me apareceu por sua causa
Você é a causa. E que causa? Por que causa?
Por que apareceu agora?
Por que nessa hora, que me parecia tão vazia?

Então me encontro aqui, sozinha
Lembrando que um momento eu te queria
E depois te desprezei.
Por que? Não sei.

Sua loucura já não me parece louca
E aquilo que já foi importante, agora é supérfluo.

Vamos sair daqui, para uma dimensão só nossa.
Onde não haja princípios nem julgamentos
Onde possamos fazer o que quisermos
Sem consequências.

Mas o que é a vida senão
Um mar de consequências das nossas escolhas?
Tudo o que podemos fazer é andar
E tentar não olhar para trás.
E assim, quem sabe, não nos arrependermos

Daquilo que foi feito jamais.